segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poemas com “Outubro” (II)





A propósito deste amanhecer soalheiro de Outubro na encosta da Tapada do Castelo, o segundo dos quatro poemas de Cristina Campo com o nome “Outubro”:

*

Agora que voltada está a clepsidra
e o futuro, este sol ardente,
já me bate nas costas, com os pássaros
tornarei sem dor
a Bellosguardo: lá pousei a garganta
sobre verdes guilhotinas de cancelos
de um rosa eterno
vibravam as mãos, vazias de flores.

Oscilante entre o fogos dos olivais,
brilhava Outubro antigo, um amor novo.
Emudecida, afiava o coração
na navalha das águias impensáveis
(já próximas, já nossas, já distantes):
aéreos sepulcros, túmulos de neve
do meu amanhã pueril, do sol.


Cristina Campo
Trad. José Tolentino Mendonça




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Os Pinhões Cerimoniais e as outras Búnias de Sintra


Eis os afamados pinhões da búnia-búnia, que finalmente pudemos tocar, cheirar e cerimoniosamente comer. Sim, esses pinhões aparatosos da fotografia já não existem, circulam neste preciso momento nos nossos caminhos interiores. Primeiro foi necessário abri-los, pois o seu exterior é duro como o dos os verdadeiros pinhões do pinheiro. Depois, pensámos que à primeira dentada seriamos logo transportados aos confins da Austrália, mas a verdade é que ficámos a meio caminho, algo decepcionados com a consistência aglomerosa, a aspereza na língua e o sabor indiferente. Até decidirmos torrá-los levemente numa frigideira seca, o que logo nos fez aterrar confortados na floresta húmida de Queensland – é isso que decerto fazem ou faziam os devotos aborígenes: o pinhão tornou-se estaladiço e o sabor abriu.

Para a colheita dos pinhões tivemos de fazer alguma batota: as búnias-búnias que os ofereceram não foram as de Sintra, mas sim a do Jardim Botânico de Lisboa, que os tinha espalhados, caídos à sua volta. Antes, já tínhamos investigado as outras búnias que existem em Sintra: na do Parque da Liberdade, cuja existência nos foi devidamente recordada em comentário anterior, não encontrámos pinhas nem pinhões, provavelmente devorados pelas exóticas feras predadoras que por lá rondam.


Quanto à búnia-búnia do Parque da Pena (também sem pinhas que se vissem) tem a sedução de uma árvore rara e magnífica mas esquecida, deixada selvagem no jardim abandonado em frente da Abegoaria arruinada. É uma resistente do ciclone de 1941 e, à força de permanecer longe dos caminhos frequentados, tem um ar de formosura desleixada, como aquelas criaturas muito belas que se tornam duplamente encantadoras por darem muito pouca atenção a si próprias.




terça-feira, 13 de outubro de 2009

Poemas com “Outubro” (I)

Castanhal da Rainha

Agora que Outubro avança pelo Castanhal da Rainha, ocorre-nos que há um belo livro de poesia de Cristina Campo, cuja beleza italiana foi tornada belo português por José Tolentino de Mendonça (e publicada com uma bela capa e papel cheiroso pela Assírio & Alvim em 2002). Ora, nesse livro podem ser encontrados quatro poemas contendo o nome “Outubro”, que nos parecem perfeitos para nos acompanhar em quatro dias desta parte do ano. Eis o primeiro:


*

Dobra-se o vestuário branco estival
e tu desces o meridiano,
doce Outubro, e seus ninhos.

Estremece o canto derradeiro nos mirantes
onde o sol era a sombra e a sombra o sol,
entre fadigas acalmadas

E enquanto hesita tépida a rosa
o bago amargo destila já o sabor
dos sorridentes adeus.



Cristina Campo
Trad. José Tolentino Mendonça

sábado, 10 de outubro de 2009

O Parque de Estacionamento, outrora conhecido por Largo da Misericórdia

Largo da Misericórdia (vista parcial)

A circulação e o estacionamento é, indubitavelmente, o problema mais grave de Sintra e também aquele que exige um projecto global corajoso, ancorado em estudos sólidos e em soluções arrojadas, e, necessariamente, numa vontade política forte. O novo mandato autárquico deveria ser a oportunidade de iniciar este processo pondo fim à atitude prevalecente nestes últimos anos: de tanto fingir que não se vê o problema conseguir acreditar que ele não existe.

No centro da Vila a necessidade de reordenamento e requalificação dos espaços públicos é notória. No entanto, para que isso aconteça é necessário que o todo o espaço mais ou menos livre deixe de ser, passiva ou activamente, destinado a estacionamento. Depois de uma entidade externa ter imposto o fim do estacionamento no Terreiro Rainha D. Amélia, defronte do Palácio Nacional de Sintra, quando é que a Câmara se decide, por exemplo, a transformar o Largo da Misericórdia (logo abaixo daquele) numa efectiva praça?

De facto, hoje, Largo da Misericórdia não é senão o nome de um parque de estacionamento público (por outras palavras, um terreno público alugado ao minuto para fins privados), onde um sitiado pelourinho não só constitui um estorvo para os automobilistas como, ao ocupar de forma permanente dois potenciais lugares, conduz a uma substancial perda de receitas privadas e municipais (ver a decisão da Câmara e da Assembleia Municipal de privatizar a exploração do estacionamento pago no concelho). E sempre num estado de duvidosa apresentação e higiene.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ruínas nada românticas



Como todos sabemos, há ruínas e ruínas. As que vemos ao chegar ao centro da Vila Velha – os edifícios do Café Paris e o anexo à Torre do Relógio e à antiga cadeia (hoje Correios) – nada têm de romântico. Fruto do abandono e da incúria, a que apenas escapam os andares térreos, e ameaçando derrocada, sabemos que o seu estado é, em primeiro lugar, da responsabilidade dos seus proprietários. Sabemos também que, infelizmente, estes edifícios não são caso único em Sintra. Mas, dada a sua localização e os instrumentos legais existentes, ocorre-nos uma pergunta: onde pára a Câmara Municipal? Tão activa nos petits riens com que enche a Volta do Duche, porque é que ao longo de todos estes anos não interveio, quando o poderia e deveria ter feito?


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

"e eu disse que aqui poria um ser"


A propósito das Primeiras Jornadas Llansolianas de Sintra, que decorreram este fim-de-semana, uma imagem do jardim na entrada do Parque de Pena e um excerto da Causa Amante (Capítulo I – Movimento):

«1 – este é o jardim que o pensamento permite; mas, quando aqui cheguei já havia folhas de pereira curvadas sobre outras folhas e dom arbusto aparecia na proa do fio como uma embarcação branca
esta forma de terra foi cortada num arco
e uma rede intrincada cobre o chão por onde passeio, pensando,
desde o ponto em que sou dom arbusto;
é um jardim,
começou por ser este jardim a ideia de asa triangular, terra coberta das mesmas espécies,
ervas,
e eu disse que aqui poria um ser,
alguém a ser.»

domingo, 4 de outubro de 2009

Tília de folhas extraordinárias


Num circo arbóreo como os antigos, em que se exibiam exotismos, estranhezas e monstruosidades, esta tília seria prontamente contratada para horrorizar os bons cidadãos com as folhas formato A3 que lhe crescem à volta da base do tronco. É fenómeno com pelo menos meio século, como testemunha Mário de Azevedo Gomes na Monografia: “...uma tília de enormes folhas – certas, dos rebentões da base, atingem 32 X 25 cm – e que tenho como Tilia glabra, var. macrophylla... (p. 324)”.


Um pouco mais acima, junto a uma folhagem mais regular, brácteas compridas prometem chás abundantes que poderão acalmar a tensão de todos os turistas encurralados no deprimente trânsito ferial de Sintra. A Tilia glabra, diz-nos o irregularmente fiável mundo virtual, é a Tilia americana e responde igualmente por diversos outros nomes poéticos:

Tilia neglecta, Tilia truncata,
Tilia palmieri, Tilia venulosa.

Encontrar esta tília é muito fácil: vive encostada ao muro da Tapada do Castelo, logo após a antiga Casa do Guarda.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Poder Sedutor da Couve Portuguesa


Em São Pedro, na curva com que se inicia a Calçada da Pena, pode apreciar-se um desses casos comuns de atracção entre opostos: um encanto de buganvília da qual, como todas as buganvílias, ninguém consegue desviar o olhar e que, se pudesse falar, admitiria melodiosamente ser muito bela e um pouco lerda, partilha hoje o terroso leito com um sólido exemplar de couve portuguesa que a seduziu. Este vegetal sem sofisticação, sem discurso, frequentador de locais sem prestígio, possui uma inteligência prática e vigorosa que é reconhecida por ocasionais buganvílias e por todos os apreciadores de caldo verde.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Quinhentos metros a nordeste do Tapete Verde


Hubert Robert (1733-1808). Le Bosquet des Bains d’Apollon, c.1775. Óleo sobre tela, 67 x 101 cm. Lisboa, Museu Gulbenkian.

Em 1778, Hubert Robert (1733-1808) foi nomeado Dessinateur des Jardins du Roi, por Luís XVI (1754-1793). Um ano antes, o artista apresentara no Salon, com grande sucesso, as suas Vues des Jardins de Versailles dans le Temps qu’on en abattait les arbres, que deram ao público parisiense um vislumbre do grande projecto de Luís XVI que visava transformar os ordenados jardins de Versalhes numa floresta selvagem – numa passagem da natureza controlada à natureza liberta, muito de acordo com as ideias dos philosophes (especialmente Jean-Jacques Rousseau) e com o modelo do parque inglês – que se traduziu, por exemplo, no abate e replante de cerca de duzentas mil árvores nos Invernos de 1774-75 e 1775-76. No Museu Gulbenkian podemos ver dois admiráveis estudos para essas obras (hoje no Palácio de Versalhes): Le Tapis Vert, com que iniciámos este blogue, e Le Bosquet des Bains d’Apollon, pintados provavelmente em 1775.

Nas suas funções, Hubert Robert não se limita a representar o que vê. Intervém no mundo visual: imagina e cria o que de outra forma não seria possível ver. No Parque de Versalhes, como pintor e decorador, concebe vistas, elabora cenários, compõe espaços, escolhe e instala esculturas e obras diversas. O seu trabalho é um misto de pintura, decoração, instalação e comissariado artístico, cruzando meios, géneros e matérias. Exemplo disso é a Grotte des Bains d’Apollon – que recria o Palácio de Tétis – onde Robert reinstalou três grupos escultóricos de artistas franceses do século XVII. Rochas, árvores, água e invisíveis sistemas hidráulicos combinam-se com esculturas classicistas para criar uma obra complexa e fantástica. Um pedaço da desejada natureza selvagem, artificial e ilusória. Uma obra de land art muito antes desta existir.

Hubert Robert (1733-1808). Le Bosquet des Bains d’Apollon, 1803. Paris, Musée Carnavalet.

Ao contrário da tela que o artista pintou em 1803 e que se encontra hoje no Musée Carnavalet, em Paris, O Pequeno Bosque dos Banhos de Apolo não nos dá a ver o resultado final – terminado somente em Setembro de 1780 – mas o seu processo. A pintura encena uma visão dos trabalhos neste sector do Parque, cerca de quinhentos metros a nordeste da vista proporcionada pelo Tapete Verde, mostrando-nos o corte das árvores e o desmantelamento dos jardins, as visitas de inspecção da família real e uma das esculturas, Tritões com os Cavalos de Apolo (c.1670), de Gaspard Marsy (1624/25-1681) e Balthazar Marsy (1628-1674), antes da sua transferência definitiva para a gruta de maravilha – onde ficará à esquerda do grupo central.

Le Bosquet des Bains d’Apollon, Parque do Castelo de Versalhes (fonte: wikipedia).

Quinhentos metros a nordeste d’O Tapete Verde (mas para nós, dentro da sala do Museu Gulbenkian, ali logo ao lado), Robert, pintor de ruínas – que é como quem diz, de desolações e melancolias – mais fingidas que reais, mostra-nos uma ruína natural: um pedaço destroçado do velho parque de Luís XIV (1638-1715) e André Le Nôtre (1613-1700). Mas também os preparativos para a sua reconstrução – também como ruína (pois o que é uma gruta senão um arruinado, ou erodido, pedaço de rocha?). Ruína e transformação: a obra, tal como a vida de Hubert Robert, desenrola-se entre estes dois pólos. Tempos de convulsão, tempos de revolução, tempos de transição. Porque será que estas obras surtem em nós uma tão forte, familiar e íntima atracção?

sábado, 26 de setembro de 2009

Concerto pelo conserto do Jardim Botânico


Albrecht Dürer (1471-1528). Estudo, 1503. Aguarela e guache sobre papel, 41 x 32 cm. Viena, Graphische Sammlung Albertina.


Há palavras e conceitos que de tantas vezes se terem encontrado, misturado e até pelejado, adquirem uma íntima e inabalável familiaridade. De tal modo que facilmente esquecemos as suas diferenças – quando não os seus mais secretos paradoxos. Jardim e barroco, música e botânica, Händel e Telemann, são exemplo disso.

Demonstrando, uma vez mais, a íntima relação entre todas elas, na próxima terça-feira, dia 29 de Setembro, às 21h30, realizar-se-á na Aula Magna um concerto de apoio à reabilitação do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa. O novíssimo Retrospect Ensemble (sucessor do King’s Consort), dirigido por Matthew Halls, tocará – para o nosso prazer imediato e o futuro proveito do Jardim Botânico – obras daqueles dois compositores (as suas Músicas Aquáticas e a Música para os Fogos de Artifício Reais, de Händel).

Ou, de um outro ponto de vista: haverá melhor demonstração das estreitas relações entre arte e ciência e entre deleite sensorial e trabalho científico do que um jardim botânico?