quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Demagogia Fotográfica, ou «Mostra-me o Caminho»





Numa expedição fotográfica de há dois dias em que voltámos a recolher imagens muito parecidas com algumas que aqui colocámos em Setembro, um de nós desabafou que tudo isto não passava de demagogia sob forma fotográfica – objectos escandalosamente fáceis e vulgares, resultado de um só clique displicente que, no entanto, enganavam os seus espectadores com o seu sempre eficaz e pasmante efeito – como o efeito, disse um de nós, de provas fotográficas da existência de Deus.

É um facto: em certos lugares bem escolhidos, em momentos bem delimitados e fugazes, verificada a proporção exacta de luz e de vapor e sendo-nos oferecido o ângulo de visão eleito, um clique irrefutável basta para lançar de joelhos os incréus. Ou, em qualquer caso, para obter ilustrações que se adequem à Mostra-me o Caminho e a outras publicações místicas.

sábado, 21 de Novembro de 2009

Zelkovas ruborescidas


Em Junho andámos embasbacados com a luz juvenil das zelkovas - as keyaki japonesas - na entrada da Pena. Agora, chegados ao auge da sua coloração rosa-verde rosa-encarnada, não nos devemos deixar abater pelos fios eléctricos que atravessam as copas, nem pela multidão de automóveis e autocarros da hora de ponta turística. Há sempre um ramo ruborescido que consegue escapar ao ruído para se mostrar aos seus admiradores.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Exemplar raro


No topo do Parque da Liberdade, do lado da Rua das Murtas, vive este raro e caprichoso exemplar de Palmeira-de-Tronco-Encarnado, que só se encontra nesta altura do ano. Quem pretender (muito justamente) prestar-lhe vassalagem deve correr: no Inverno a preciosidade converte-se em mera Palmeira-Palmeira.

domingo, 15 de Novembro de 2009

Outono: last call




Quem quiser gozar por inteiro os prazeres do Outono sintrense vai ter de se apressar. Uns dias mais e a paisagem invernosa sobrepõe-se à outonal. Uma manhã molhada e escura como a de hoje já prenuncia o fim dos dias dourados. No entanto, ao longo da semana que vem, prevê-se tempo mais frio mas manhãs nevoentas seguidas por dias ensolarados, que ainda podem bem ser saboreados por inteiro, como despojos desta tão aguardada e demasiado curta estação do ano. Estas imagens, envelhecendo rapidamente, recolhemos há talvez sete dias na encosta do Castelo. Estamos a ver se não nos fogem entre os dedos.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Descintrificação (I)


A Sintra luxuriante dos nossos dias, tão diferente da que Herculano descreveu há século e meio, deve muito a uma migração de culturas dendrófilas norte-europeias, que aqui se aclimataram com resultados que hoje vemos como a quintessência sintrense – desde logo, à cabeça, a germânica Pena, seguida do seu irmão britânico menor, Monserrate. Mas as recriações do Jardim do Éden não se ficaram pelas grandes escalas: foram generalizadas com várias intensidades e diferentes sucessos, desde a grande quinta histórica à casa de bonecas com o seu pátio de um palmo.

Foi e continua a ser o conjunto de acções de múltiplos proprietários inspirados, com os seus parques públicos ou privados, a fonte primeira desse deslumbrante equilíbrio de paisagem que conhecemos, em parte edificada, em parte natureza domesticada, em parte quase selva. Porém, quando estes proprietários são contaminados pelo ódio meridional à arborização séria e perdem o sentido dos seus deveres e da sua responsabilidade, os resultados são desastrosos: Sintra descintrifica-se.

Na base das escadinhas de Santa Maria havia uma casa no meio do seu jardim-selva, próprio de um local há muito tempo em quase abandono. Precisava de quem tratasse dele, é certo, mas o recanto, para quem passava nos caminhos em volta, era um gosto de sombra e verde saturado. Há poucos anos a casa foi comprada por diplomatas, cremos que vindos de um lugar hispânico – talvez o deserto de Sonora, talvez o de Atacama, talvez um pedaço dos mais estéreis de Castela Nova ou Aragão. Atarefaram-se em obras na casa e no jardim, e o resultado foi este:


Não gostamos dos detalhes decorativos, mas é mera questão de gosto, tal como o são, de outro modo, o pavilhão de churrasco e a piscina. Mas arrasar toda vegetação e cobrir o chão de lajes em forma de calçada calcária é puro crime lesa-Sintra para o qual não há perdão. Um sítio magnificamente sintrense transformou-se assim num sítio desgostoso a evitar. A única réstia de esperança está agora na placa “vende-se” pendurada após a devastação. Roga-se aos futuros proprietários um pouco mais de sensibilidade e algum reconhecimento pelo lugar único que lhes será permitido partilhar. Plantar um jardim-bosque que merecesse Sintra seria um bom começo.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Bruscamente, no Outono


Bruscamente as melias decidem amarelar. Tão rápida e intensamente que os observadores mais distantes ou distraídos podem pensar estar perante florações de Outono. Mas não, são apenas as folhas das asiáticas melias a outonar. As que aqui vemos encontram-se no terreiro defronte da estação da Portela de Sintra, há muito transformado em gigante parque de estacionamento e que podia e devia ser um outro tipo de parque: uma praça jardim com, por exemplo, estacionamento subterrâneo.


quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

A Parques de Sintra e a complexa tarefa de vender bilhetes


A Parques de Sintra – apesar de se fazer pagar principescamente pela gestão dos parques públicos e de recorrer a modernos sistemas informáticos para a emissão de bilhetes – obriga os que queiram visitar o Parque da Pena entrando pelo Portão dos Lagos a, simplesmente, subir cerca de 1 Km até à bilheteira do portão principal da Pena. Isto porque um estranho capricho informático (ou será de gestão?) impossibilita a venda do respectivo bilhete na bilheteira do Castelo dos Mouros – consideravelmente mais próxima da referida entrada – e porque, na época baixa, a bilheteira do Portão dos Lagos se encontra encerrada. Se a isto juntarmos o facto do posto de venda da entrada principal do Parque da Pena apenas ter um(a) funcionário(a) de serviço e, consequentemente, ao fim-de-semana, dezenas de metros de fila de espera, constatamos que, apesar dos discursos de boas intenções, há um profundo desrespeito por aqueles em nome de quem esta empresa exerce a sua actividade.

Ou será pedir muito que as várias bilheteiras geridas pela mesma empresa e ligadas pelo mesmo sistema informático possam vender bilhetes de entrada para qualquer um dos parques? Caso seja, sugerimos uma solução revolucionária: a adopção de bilhetes impressos tipograficamente. Seria até uma bonita homenagem ao antiquado Gutenberg!

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Votos de Bom Inverno


Na Primavera que passou, numa manhã nevoenta de Maio, demos as boas vindas a um castanheiro adolescente que se instalou na orla do Castanhal da Rainha para, assim esperamos, o primeiro de muitos séculos de vida. Nesta manhã nevoenta de Novembro, levando-lhe votos de bom repouso de Inverno, saudámos de novo a sua beleza e a das folhas que lhe restam.

sábado, 31 de Outubro de 2009

Poemas com “Outubro” (IIII)


Com flores despertadas num baldio pela chuva de Outubro e com o último dia de Outubro fecham-se os poemas com Outubro no nome:


*

VERÃO INDIANO


Outubro, flor do meu perigo –
primavera derramada pelos rios.

Ora me é indiferente até à morte
– o acero tem o voo quebrado, os fogos trazem tanto fumo –
ora o terror de existirem me afronta
radioso, como o astro vermelho.

Tudo é já sabido, a maré prevista
e porém tudo se obscurece e aclara
com fresca desesperação, com extraordinário
firmeza...

A luz entre duas chuvadas, sobre a ponta
do rio que me trespassa entre corpo
e alma, é uma luz da noite
– a noite que não verei –
clara nas selvas.


Cristina Campo
Trad. José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Capitão Ahab, precisa-se



Duas horrendas baleias brancas estão a assombrar a Serra de Sintra: uma anda pelo jardim do portão principal da Pena, levantando a sua bossa acima do muro e desfigurando a paz das manhãs de Outono. Outra invadiu um outrora tranquilo terreiro junto do Castelo dos Mouros, quebrando o encanto dos caminhos e amedrontando os passantes desprevenidos. Suspeita-se que estes monstros pretendem, com a crueldade que lhes é própria, apoiar visitantes que necessitem refresco ou entretenimento - porque há quem entenda que os Parques não entretêm o suficiente e que os visitantes são excessivamente irrequietos e concentram-se com dificuldade.

Na verdade, estas baleias evocadoras de tendas de copo-d´água poluem as belas visões da Serra e arreliam sem necessidade os amantes de Sintra: «tudo o que enlouquece e que atormenta, tudo o que agita o fundo turvo das coisas, toda a verdade contendo uma dose de malícia, tudo o que desorganiza os nervos e confunde o cérebro, tudo o que existe de demoníaco na vida e no pensamento, todo o mal em suma» (Herman Melville, Moby Dick, trad. Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, Relógio d´Água 2005, p.219).

Aqui fica por isso um apelo desesperado: não era tão bom que um perseguidor de baleias tão furioso como o Capitão Ahab, mas mais bem sucedido do que o da história terrível, arpoasse impiedosamente estas Moby Dick e restituísse a serenidade a estes lugares?